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sexta-feira, dezembro 3, 2021
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Há uma nova tendência na demanda das vagas de residência em Ortopedia e Traumatologia?

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José Martins Juliano Eustaquio1,2 1 Coordenador da Residência de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Mário Palmerio, Uberaba (MG) 2 Presidente da Seccional do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba da SBOT/MG (2021)

Há alguns anos presenciamos a escassez de médicos pediatras no mercado, reflexo da baixa procura por vagas de Residência Médica nessa especialidade. Essa escassez levou, ao menos de forma tímida, a melhores condições de mercado para esse especialista e, consequentemente, ao aumento na procura pela Residência em Pediatria. Essa dinâmica de crescimento provavelmente também ocorrerá na especialidade de Medicina Intensiva, impulsionado pela Pandemia pelo Covid-19.
Já a Residência Médica de Ortopedia e Traumatologia, devido a fatores como acesso direto, alta resolutividade e à demanda do mercado, dentre outros, sempre foi atrativa aos médicos recém formados. Porém, será que esse panorama ainda é uma realidade?
De acordo com dados da Comissão Estadual de Residência Médica de Minas Gerais (CEREM/MG), em 2019, 45% dos serviços de Residência de Ortopedia de Minas Gerais não haviam completado o número total de residentes. Desse total, 20% apresentavam um número de residentes do primeiro ano (R1) menor ou igual à metade das vagas disponíveis. Já em 2021, 58% dos serviços de Residência de Ortopedia de MG encontram-se desfalcados de R1 e, desses, 35% apresentam a metade ou menos da metade do número de vagas preenchidas para o primeiro ano da residência.
Outro dado relevante é que, em Minas Gerais, a procura por serviços credenciados pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) é maior do que por serviços não credenciados. Em 2021, 67% dos serviços não credenciados pela SBOT estão desfalcados de R1, ao passo que 50% dos serviços credenciados estão na mesma situação.
Essa diminuição na procura pela especialidade surge na contramão da oferta de profissionais médicos em todo o Brasil. A proporção de médicos para cada 1000 habitantes partiu de 0,98 em 1980 para 2,4 em 2020, com projeção de que essa proporção continue crescendo nos próximos anos.
Seria essa menor procura pelos serviços de Residência em Ortopedia algo esporádico, relacionado principalmente aos reflexos da Pandemia, ou relacionado a uma nova tendência da especialidade?
A análise dos anos de 2019 e 2021 deixa evidente que a Pandemia exerceu um poder relevante. A oferta de trabalho médico nesse período aumentou muito, principalmente na forma de plantões de Clínica, algumas vezes muito bem remunerados e atrativos para os médicos recém formados. Além disso, a insegurança dos médicos quanto à qualidade dos serviços de residência durante a vigência da Pandemia, principalmente nas áreas cirúrgicas, com procedimentos suspensos devido a decretos regionais e municipais, é outro fator significativo.
A escolha da especialidade também é o reflexo do mercado de trabalho, assunto esse muito debatido atualmente pelos acadêmicos. No Brasil, em 2020, a especialidade Ortopedia e Traumatologia ocupava a sétima posição na distribuição de títulos de especialistas em Medicina. De forma adicional observa-se, nos dias de hoje, uma escassez frequente na oferta de vagas de trabalho para ortopedistas, principalmente nas Regiões onde há maior concentração médica, como o Sudeste. Como exemplo, é cada vez mais comum a existência de médicos especialistas que atuam em uma cidade satélite, com o objetivo de reserva de mercado e crescimento profissional futuro, e em outras do interior, cujo objetivo é essencialmente financeiro.
Assim, é importante que todos os coordenadores e preceptores de Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia fiquem atentos a essa potencial nova realidade, pois geralmente um serviço de Residência tem seu funcionamento ideal padronizado para um número mínimo de residentes. Se houver mesmo um novo paradigma na procura pela especialidade, a logística desses serviços terá que ser reconsiderada.

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