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sexta-feira, dezembro 3, 2021
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Entrevista Dr. Pedro Henrique Pires

1. O que motivou sua escolha por fazer uma subespecialização? E por que em outro estado?

O mercado médico está cada dia mais saturado, mas ainda há uma demanda por profissionais com boas qualificações. Dessa forma para se inserir em grandes centros é quase uma obrigação a realização de uma subespecialidade. Como meu objetivo desde o princípio era trabalhar em Belo Horizonte, a realização de uma subespecialização já fazia parte dos meus planos no momento da escolha pela Ortopedia.

A opção por realizar o treinamento em São Paulo se iniciou após conversar com meu Pai, Pedro José Pires Neto, que realizou a residência de Ortopedia em Belo Horizonte e Cirurgia da Mão na UNIFESP. Cresci ouvindo histórias sobre como a residência em São Paulo foi importante e um diferencial para sua carreira.

Realizar um R4 em outro estado não é uma decisão simples pois é um dos momentos em que mais surgem convites de emprego e existe o risco de que essas oportunidades sejam perdidas. Porém o que me motivou a seguir esse caminho foi a carência de profissionais em BH que estejam aptos a realizar procedimentos microcirurgicos complexos como retalhos, reimplantes, cirurgias para reabilitação de tetraplégicos e até mesmo a equipe de transplante hepático intervivo em que as anastomoses microcirurgicas são realizadas atualmente em São Paulo pelo Dr. Teng e Dra. Fernanda Iwase chefes do grupo de mão e microcirurgia da USP.

2. Por que escolheu a “subespecialidade”?

Tive contato com a Cirurgia da Mão desde cedo, e a especialidade sempre me encantou. A grande variedade de procedimentos cirúrgicos, alta resolutividade, fluxo de pacientes e a oportunidade de realizar procedimentos reconstrutivos talvez sejam os principais pontos que me fizeram optar pela Cirurgia da Mão.

3. Como foi a sua preparação para fazer a especialização? Quais dicas você dá para residentes que almejam fazer uma formação fora do estado?

Minha preparação para a realização das provas de R4 se iniciou no último ano da Residência de Ortopedia. Ao realizar o planejamento anual das escalas programei com a ajuda dos meus colegas de residência, estágios menos sobrecarregados para as vésperas das provas.

As provas em geral ocorrem entre o final de outubro e início de novembro. Iniciei um cronograma de estudos a partir de agosto com o objetivo de revisar o conteúdo e realizar provas antigas. Porém uma dificuldade no caso da Cirurgia da Mão é que as provas de BH têm como conteúdo Ortopedia Geral. Já as provas de São Paulo, especificamente USP-SP e UNIFESP tem como conteúdo Cirurgia da Mão e Cirurgia Plástica. Dessa forma, talvez a dica mais importante e mais difícil de ser seguida seja: escolha qual serviço você mais deseja e foque com base nas provas antigas no tipo de conteúdo que será cobrado.

A dificuldade está no fato de ser um processo seletivo. Caso limite demais o seu foco e a sua preparação para apenas um ou dois serviços e não atinja seu objetivo nesses serviços poderá acabar sem nenhuma vaga. Porém optei por correr esse risco, pois tinha como objetivo principal as provas de SP.

Para a maioria das provas de subespecialidade com conteúdo geral, a preparação que nos é oferecida com o Pré-TEOT, se for bem feita será suficiente. Em outubro já foram realizados todos os módulos, portanto o cronograma proposto pela SBOT-MG pode ser um grande aliado nessa preparação.

4. Você fez algum tipo de planejamento financeiro?

Sim, o planejamento financeiro é essencial. Não são todas as subespecialidades que possuem bolsa e mesmo a bolsa provavelmente será insuficiente para se manter nas grandes capitais.

Ao chegar em um novo estado, conhecendo poucas pessoas, leva-se tempo até conseguir plantões e recursos para se manter. Uma boa opção é conversar com pessoas que estão realizando o programa que você deseja e avaliar o custo mensal básico. Uma programação de 4-6 meses geralmente é suficiente, pois é o tempo até conseguir novos lugares para trabalhar e começar a receber.

Outra estratégia efetiva, mas difícil de ser realizada é manter vínculos na sua cidade. As viagens e muitas vezes a não disponibilidade de carga horária do programa de R4 podem ser um empecilho. Então, tentar conciliar as viagens que você já iria fazer com plantões pode ser uma boa tática como renda complementar.

5. Você fez uma visita ao serviço durante seu terceiro ano de residência?

Não visitei os serviços durante a residência. Mas considero isso um erro meu, pois é muito investimento pessoal e financeiro quando optamos por um R4 em um determinado lugar. Caso se arrependa ou não seja o que você estava esperando, você pode jogar fora um ano da sua formação sem contar na preparação que você realizou para chegar no serviço.

Os grandes centros de formação geralmente são bem receptivos a visitas. Dessa forma você poderá tirar suas próprias conclusões sobre cada lugar. Poderá também conhecer os coordenadores e lembre-se de que são eles que irão te avaliar nas entrevistas e isso pode te ajudar de alguma forma.

6. Qual dica você dá aos seus futuros colegas de SBOT que estão no terceiro ano de residência? O que considerar na escolha da subespecialidade?

A escolha da subespecialidade é uma decisão muito individual, em que vários fatores devem ser levados em consideração. Em primeiro lugar a afinidade com a área é sim muito importante. Porém eu conseguiria excluir apenas duas subespecialidades que não tive afinidade. Dessa forma as oportunidades que nos são oferecidas também são igualmente importantes. Devemos avaliar o local que gostaríamos de trabalhar e qual a necessidade do serviço no momento. Outro ponto para considerar ao pensar em realizar um R4 fora do estado, por mais que você consiga adquirir conhecimento que iria agregar aos serviços da sua cidade, geralmente é no R4 que surgem os convites para se juntar ao corpo clínico de um hospital e você pode perder essa oportunidade. Mas não existe certo ou errado e pode ser que o R4 abra uma série de novas oportunidades que você nem sabia que existiam.

Talvez o melhor conselho que eu possa dar aos atuais R3 de Ortopedia é aproveite a sua residência. Aproveite cada cirurgia, discussão, apresentação e dê o seu melhor. Mas principalmente aproveite os seus colegas de residência. Todos sabemos que o programa de Ortopedia não é fácil e são essas dificuldades que tornam as amizades mais fortes, tenho uma enorme gratidão por todos os momentos que pude dividir com meus amigos de residência. Uma frase muito falada no HC-UFMG sobre o TEOT, que se aplica aos processos seletivos das subespecializações e que só percebemos que é verdade depois das provas é “a aprovação é apenas uma consequência”.

Pedro Henrique Pires, médico ortopedista formado pela UFMG e atualmente R5 da Universidade de São Paulo (USP).

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