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sexta-feira, dezembro 3, 2021
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Manejo da osteoartrose das mãos

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Dra. Priscila Macedo Caires Mrozinski Membro da Equipe de Cirurgia da Mão do Hospital João XXIII (MG) de jun/18 a set/19 Ex-Residente do Hospital da Baleia/Serviço do Prof. José Henrique da Mata Machado

Dor articular e impacto da função são marcas da osteoartrose. A dor relacionada a osteoartrose resulta de um processo multifatorial em que estruturas como o osso subcondral, sinóvia e estruturas periarticulares estão envolvidas e são influenciadas por fatores ambientais e psicossociais. Existem múltiplos componentes associados importantes para o manejo da osteoartrose incluindo fatores como a depressão, alteração do sono, problemas sociais e alterações específicas nas articulações exigindo diversas formas de tratamento.
A osteoartrose das mãos é um dos mais comuns fenótipos de osteoartrose, e é um grande fardo na clínica. Para saber mais a respeito, o Jornal SBOT MINAS entevistou a Dra. Priscila Macedo Caires Mrozinski, da equipe de Cirurgia da
Mão do Hospital João XXIII, de Belo Horizonte.

Qual é a prevalência da osteoartrose nas mãos?
Segundo estudo americano, 13% dos homens e 26% das mulheres apresentam essa doença. Já na China o mesmo estudo relatou não ser tão frequente, independentemente
da idade e sexo.
Em recente estudo que realizou, a senhora defende o envolvimento do paciente no tratamento. Por que o entendimento dele sobre a doença é tão importante?
Embora os benefícios pareçam ser pequenos, educar o paciente quanto ao curso e a natureza da sua doença é essencial como parte do tratamento.
Qual a estratégia de tratamento?
É aliviar os sintomas, envolvendo uma combinação de intervenções não farmacológicas, farmacológicas e cirúrgicas, como forma de aliviar a dor articular, restaurar o máximo
Manejo da osteoartrose das mãos possível a força muscular e melhorar a qualidade de vida do paciente.
Uma combinação de terapia não farmacológica e farmacológica é geralmente utilizada na prática clínica para o tratamento. Como deve ser essa escolha?
A escolha do tratamento vai ser guiada pela presença de envolvimento de outras articulações e comorbidades. Intervenção cirúrgica geralmente é reservada para pacientes com anormalidades estruturais e sintomas incapacitantes que não foram responsivas a tratamento não farmacológico ou farmacológico.
É importante reconhecer que diferentes manifestações de osteoartrose nas mãos podem influenciar as formas de tratamento. Por exemplo, a artrose da base do polegar (rizartrose) pode ter maior benefício com uso de órtese ou intervenção cirúrgica. Em contrapartida, a osteoartrose erosiva tem um processo infamatório característico que não apresenta
uma estratégia terapêutica bem reconhecida.
O uso de órteses para a osteoartrose nas mãos visa o alívio da dor, particularmente em pacientes com osteoartrose sintomática da base do polegar.
E quanto ao tratamento tópico?
Pode ser indicado, especialmente para pacientes mais idosos, portadores de comorbidades. O tratamento tópico com anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) pode ser melhor que o tratamento oral.
Exercícios resolvem?
Eles podem melhorar a função, a força muscular e a dor. Podem incluir também ganho de amplitude de movimento e fortalecimento. Havendo resposta inadequada ao tratamento inicial, nesses casos, podemos lançar mão de uso oral de AINE, geralmente com a menor dose efetiva possível e em mais curta duração, uma vez que pacientes portadores de
osteoartrose são geralmente mais velhos e portadores de comorbidades.
E o uso do meclofenamato, ibuprofeno e lumiracoxib?
Poucos estudos avaliaram suas eficácias. O meclofenamato não é geralmente utilizado devido ao alto risco de efeitos adversos gastrointestinais e o lumiracoxib foi retirado do mercado devido a possíveis eventos adversos. Esses estudos têm demonstrado
a superioridade de AINE em comparação ao placebo para o alívio da dor.
Em contrapartida, para pacientes portadores de osteoartrose nas mãos com comorbidades que contraindiquem AINE, via oral, é sugerido o uso de acetaminofeno (Paracetamol).
Não existem estudos clínicos aleatorizados publicados para investigar a eficácia do acetominofeno na osteoartrose das mãos, e seu efeito parece ser pequeno baseado em evidências indiretas na osteoartrose dos joelhos.
Quando a cirurgia é uma boa indicação?
Quando opções não farmacológicas ou farmacológicas não aliviam mais os sintomas. A intervenção cirúrgica é geralmente reservada para pacientes com doença severa, com
anormalidades estruturais e sintomas refratários, cuja qualidade de vida esteja muito comprometida.
Nesses casos há várias opções e a escolha depende da articulação acometida (interfalangeana proximal ou distal, primeira carpometacarpena), das características do paciente, incluindo sua demanda funcional, preferência pessoal e do cirurgião.
Intervenção cirúrgica é frequentemente realizada nos casos de osteoartrose da base do polegar, embora artroplastia e artrodese de interfalangeana distal e proximal não sejam
incomuns.
Existem outras terapias que podem ter benefício nas mãos e não são rotineiramente indicadas?
Sim, por exemplo, o sulfato de condroitina e a glicosamina são considerados condroprotetores e não são rotineiramente indicados na osteoartrose das mãos por não terem evidência de seus benefícios. Os pacientes que querem lançar mão de tal terapia não devem ser desencorajados, pois são mundialmente utilizados na osteoartrose.
Outros agentes tópicos, como a capsaicina tópica, podem ser utilizados como terapia analgésica adicional em pacientes em que as demais terapias não foram suficientes ou
contraindicadas. Entretanto, efeitos adversos locais, como queimação e ardor, são frequentemente relatados.
Seu mecanismo de ação envolve dessensibilização de terminações nervosas na pele.
Salicilatos tópicos constam também como uma possível modalidade terapêutica. Porém, não têm sido recomendados devido à falta de estudos.
Suplementos nutricionais, como abacate e óleo de soja, também têm sido considerados como bloqueadores de citocinas pró inflamatórias, mas sem forte evidência científica.
O uso de calor é coadjuvante para o alívio da dor?
Sim, sua aplicação local pode ter efeitos positivos sobre a dor e força de preensão em pacientes. Ela é frequentemente realizada com parafina, compressa de água morna, radiação infravermelha, sendo a escolha da modalidade de acordo com a preferência do paciente.
E o uso de injeções intra-articulares, para alívio da dor?
Vejamos: dentre as injeções intra-articulares, temos a injeção de glicocorticoides, ácido hialurônico e opioides. A injeção intra-articular de glicocorticoides é amplamente
utilizada em pacientes com osteoartrose na base do polegar, mas pode ser aplicada em qualquer outra articulação na mão.
O ácido hialurônico tem sido indicado para osteoartrose da base do polegar tendo uma revisão sistemática com evidência de ser mais efetivo que placebo. Porém não é
amplamente recomendada devido a escassez de literatura.
Outros agentes farmacológicos têm sido também usados, como glicocorticóides orais, hidroxicloroquina, metotrexato e agentes biológicos, mas devido ao número limitado de
estudos demonstrando a sua efetividade, ou mesmo como modificadores de doença, ainda não são recomendadas para a prática clínica.
Considerações finais – Embora a progressão radiográfica da osteoartrose na mão possa ser considerada lenta, o curso da dor e incapacidade é heterogêneo. Por exemplo, um
estudo mostrou que em um período de seis anos, metade dos pacientes apresentou piora dos sintomas e 25% relataram menos sintomas, destaca a Dra. Priscila Mrozinski, apontando que, no entanto, o mesmo estudo demonstrou uma dissociação clínico radiológica da progressão da doença.
“A osteoartrose erosiva é considerada com uma condição de pior prognóstico quando comparada a osteoartrose não erosiva. Sendo assim, temos que os principais objetivos no
manejo da osteoartrose envolvem o cuidado contínuo com terapias centradas no paciente, sendo que a decisão pela escolha da modalidade de tratamento deve ser baseada na melhor evidência disponível, priorizando a segurança do paciente e alívio dos sintomas. Apesar das diversas terapias apresentadas como possibilidade de tratamento na osteoartrose das mãos, há uma predominância de evidências científicas para o manejo
da osteoartrose nos joelhos e quadris inferindo-se um possível efeito na osteoartrose das mãos. Devido a tal escassez na literatura, torna-se importante a realização de estudos que
demonstrem eficácia nas diferentes formas de tratamento direcionadas para pacientes com osteoartrose nas mãos”, conclui.

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